quinta-feira, agosto 26, 2010

Catarse, e uma auto-revisão.



Há alguns anos tive o “privilégio” de me envolver em uma cilada, do tipo que faz com que não se enxergue a própria cegueira. Um joguinho medíocre de ensino fundamental, no qual você retrocede pateticamente aos 12/13 anos de idade e se deixa levar pela imaturidade e a incapacidade de superar perdas do alheio... Foi tão fácil me deixar perder e vestir o cabresto da “ideologia dominante”, tentando me fazer vestir um uniforme que nunca me coube. Oferecendo-me diferentes modelos de máscaras, para que eu pudesse me enquadrar naquele joguinho. Foi tão cômodo retirar o foco do que fazia diferença em minha vida e deixar-me seduzir, a ponto de me satisfazer com aquela guerrinha de “Tom & Jerry...”
De uns tempos pra cá pude refletir e colocar os pingos nos ‘is’ de toda aquela situação, e, com alguma frequência, me peguei confusa: é mesmo a mim que aquele ser se referia? Ou as minhas contradições, frustrações e fragilidades expostas e dissecadas a céu aberto são como espelhos àquela pessoa? Que refletem as próprias inquietações que foram, há muito, trancafiadas nos porões daquela pobre alma?
Hoje a impressão que se tem, não só a minha, mas a de outros que acompanharam tudo de perto; é que na verdade essa pessoa se preocupava, ou se preocupa comigo. Como se quisesse me salvar de algo - embora eu não entenda o que a fez chegar à conclusão de que eu preciso ser salva. Porque se tinha/tem alguém que precisa de salvação nessa estória, com certeza esse alguém não sou eu... Desejo arder em minhas próprias chamas. Deixar-me ser consumida pelo fogo que queima em meu peito. Não quero ser santa, nem mártir. Prefiro ser fiel aos meus demônios - com a consciência tranquila, graças a Deus!
Talvez se eu fosse dessas pessoas que oram, a colocaria em minhas preces: pois cegueira da razão e limitação da alma são sintomas bem mais graves do que aqueles que ela tanto insistia em diagnosticar em mim...
Enfim, ficaram os questionamentos; e sinceramente, hoje eu não faço questão de obter respostas para eles. Não faz mais diferença, na verdade, no fundo, nunca vez diferença alguma, ao menos não em minha vida... Porque eu consegui me desprender de todo aquele lixo, porque eu não era obrigada a ficar naquele joguinho de quinta série. Até porque, ao longo da minha curta vida, vivi situações que me proporcionaram maturidade o bastante, a ponto de me permitir dar a cara à tapa, e rumar para novos horizontes.
Hoje tenho auto-estima e prepotência resolvidas o suficiente para ser o que sou em minha essência. Afinal, tenho aptidões necessárias o bastante para ser assim. Não uso os outros como peças em um tabuleiro, não dissimulo minha natureza por uma fachada social, e nem mesmo preciso construir minha vida apenas para sustentar uma imagem de superioridade. Não preciso viver me reafirmando perante os que me cercam, sou firme por natureza... Tenho um conjunto de vivências específicas, um grupo de consequências sofridas, uma personalidade, e tudo isso me faz ser quem eu sou, diferente de qualquer outra pessoa no mundo.
A única pretensão deste post é mostrar sobre como podemos nos perder de nós mesmos. Ao me afastar de mim, eu me perdi durante um essencial período. Não desejo isso a ninguém. Mas confesso que entre perdas, vejo os ganhos. E na perda, pude reconhecer a importância do processo de reapropriação de mim mesma. Meu aprendizado foi intenso e hoje me considero uma pessoa melhor: antes, usava máscaras e estava imersa na escuridão; hoje, não desvio o olhar do espelho e me sinto abraçada pelo o que me tornei... Hoje me concentro em tornar o hoje melhor, para que o futuro possa ser diferente. Estou sempre atenta às minhas escolhas e o tempo todo analiso meus pensamentos e sentimentos. Tenho muito a aprender, não hesito em me aprofundar em algo novo ou em mudar de idéia. Ressignifico meu passado ao mesmo tempo em que me reinvento. Porque só quem um dia perdeu-se de si mesmo sabe o tamanho dessa dor e o trabalho que dá para reencontrar-se. E se existe algo nesse mundo que eu não desejo nunca mais, é me afastar de mim.

Deixo aqui minhas últimas e sinceras palavras a essa pessoa... Eu precisava registrar isso aqui. O objetivo não é mera exposição. É exorcismo, catarse, expurgo...

Caríssima;

Se eu te causei/causo irritação, ódio, revolta e indignação, apenas se afaste de mim. Você acha que eu faço tudo errado - então, mantenha-se longe para que os estilhaços das minhas más escolhas não atinjam a sua vida perfeitinha, da qual você se orgulha tanto...
Deixe-me aqui com a minha loucura, minhas idéias estranhas, meu desajuste ao seu mundo, mergulhada na minha "vidinha" que é medíocre se avaliada sob a lente distorcida que orienta sua visão de mundo. Igual a você, já conheci muitos....
Irracional? Insensata? Imatura? Inocente? Inconsequente? Ignorante? Escolha o rótulo que desejar! Pois todas as suas tentativas não darão conta das minhas contradições. Eu não tenho ossos de vidro, e posso suportar os baques da vida... Sua capacidade de compreensão não apreende a minha complexidade. Porque você só conhece as regras. Julga-se protegida no seu mundinho monocromático: onde tudo é preto ou branco. Enquanto eu, represento o cinza e ainda transcendo: minha paleta possui todas as cores. Empresto para quem quiser pintar a vida. Mas, por favor, não borre a minha...
Iria contra a minha educação se eu não expressasse aqui o meu sincero MUITO OBRIGADO, por tamanha dedicação! Sei que você poderia muito bem estar fazendo outras coisas em vez de me odiar, mas já que você prefere gastar seu precioso tempo me detestando, tudo bem! Eu sinceramente acho o ódio um sentimento muito mais sincero do que o amor. O sujeito ou odeia de verdade, ou finge odiar porque te ama. Prometo nunca me esquecer do seu ódio por mim, porque eu jamais me esqueceria de quem contribuiu tanto para o meu sucesso.

Sem mais, com amor.

...


Ps.: E, por favor, não vista a carapuça. Pois nada, absolutamente nada neste post faz menção a você. Grata!

2 comentários:

Josy disse...

Poucas pessoas têm essa coragem que você teve, de expor seus sentimentos e dar a cara à tapa...
Parabéns pelo post!

DDA disse...

Gostei da carta, de muito bom-tom e alto nível!