Se você, caro leitor, acha que um sonho ruim pode ser considerado um pesadelo, acredite, você não sabe o que é isso. Vou lhe contar o que é um verdadeiro pesadelo...
Há exatamente um ano e cinco meses tenho vivido um pesadelo, um pesadelo que sei que quando acabar meu mundo vai estar desmoronando, e me levando junto com ele...
Meu pai, o ser que fez de mim a pessoa que sou hoje, foi diagnosticado (novembro/08) com GBM (Glioblastoma Multiforme – Grau IV), um tipo raro de tumor cerebral, cuja expectativa de sobrevida é de no máximo dois anos e meio. Logo após a cirurgia, no hospital A.C. Camargo em São Paulo (referência em tratamento oncológico), o diagnóstico fatalista dos médicos foi de seis meses de vida, mesmo havendo retirado cerca de 99,7% da massa tumoral; esse tipo de tumor tem uma margem de recidiva altíssima e rápida. Meu pai foi liberado para voltar para casa, totalmente normal e forte, fazendo uso de um medicamento caríssimo (Temodal), cerca de 5.000.0O R$ uma caixa com quatro comprimidos, o ciclo dele era de 49 caixas... Passado alguns meses (março/09), aparentemente normais, ele começou a ter alguns sintomas e de imediato voltou para São Paulo; resultado, outro tumor, agora em um local totalmente inabordável (região insular do cerebelo e tronco encefálico) e com 5 cm de diâmetro. Fomos atrás de uma segunda opinião e partimos para o Sírio Libanês (com a mesma equipe que cuida do caso do vice-presidente José Alencar), a partir daí seguiram-se várias cessões de RT (radioterapia) e QT (quimioterapia).... Sucesso, a massa do tumor havia diminuído a quase zero (junho/09)... Continuando a QT, meu pai já não aquentando mais as reações da terapia, em sua última ressonância a bomba; o tumor havia aumentado e os médicos desistiram, meu pai desistiu, não havia mais o que ser feito, nem aqui, nem em qualquer lugar do mundo. De volta em casa, ainda normal e ativo, do nada o corpo dele começou a ficar fraco, o lado esquerdo paralisando, e as funções intestinais desregulando; partimos para um tratamento alternativo... E assim foi, meus pais foram para uma clínica spa em São Paulo (fevereiro/10), e do nada tudo foi lançado em minhas mãos; meu irmão, negócios da família, administração do dinheiro, responsabilidade triplicada, TUDO. Semana passada meu pai voltou para o hospital, está internado, já não anda mais, e sente muita dor por todo o corpo.
Desde 2008 venho me mantendo forte, responsável, e lúcida o bastante para dar conta de carregar tudo isso sem desabar; mas agora eu sinto que estou chegando ao extremo... Tenho medo quando o telefone toca, tenho medo de dormir e quando acordar receber a notícia (porque agora é só uma questão de tempo, pouco tempo), tenho medo de tomar um vôo e ir ver meu pai morrendo aos poucos, tenho medo de como será depois, sem ele. Medo; uma palavra que não existia em meu vocabulário, mas que agora me assombra a cada minuto.
Isso, caro leitor, é que é um verdadeiro pesadelo; e se você acredita em deus ou em alguma outra entidade divina (eu já era meio cética, e a essas alturas já nem acredito mais), rogue todos os dias para não viver nada do tipo. Conviver com um mostro destes não é para qualquer um... E apesar de na maioria das vezes me sentir pequenina diante disso tudo, no fundo eu sei que CRESCI e me tornei mais FORTE do que já era.
Sem mais palavras... De agora pra frente só 'me restam lágrimas'!
Ps¹.: Para quem quiser ficar mais por dentro do assunto; http://www.glioblastomamultiforme.com.br/.
Ps².: E não, eu não acho que a minha vida seja uma merda por isso ou por qualquer outro motivo; continuo e continuarei sendo feliz!

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