quarta-feira, setembro 01, 2010

Mãos dadas no cinema (na cama).

"...
Namoro que é namoro está representado por algo muito mais simples, sutil, barato e íntimo: os dedos entrelaçados no escuro do cinema. De mãos dadas se constrói uma relação.
Do que sentem falta os amantes clandestinos? Luxúria eles têm de sobra. O que lhes falta é esta forma brejeira de intimidade: dar-se as mãos. Na rua é arriscado, há olhos por todos os lados, já no cinema é possível providenciar um encontro às escuras e ali realizar a mais tórrida aproximação de corpos, um ato realmente subversivo para adúlteros: unir as mãos como dois namorados.
Se, ao contrário, o casal tem um namoro oficializado, sem razão para segredo, ainda assim o segredo se manterá entre eles pelo simples fato de que as mãos dadas dentro do cinema não são uma representação pública de amor, e sim um carinho privado. Ninguém está testemunhando, ninguém está reparando, a platéia está toda de olho na tela, e o casal também, porém seguros um no outro através de um entrelaçamento que, à luz do dia, seria corriqueiro, um simples hábito sem maior significância, mas que num espaço compartilhado com estranhos, no escuro, torna-se uma forma particular e irresistível de cumplicidade.
Este gesto mundano e trivial carrega um significado que muitas vezes nem mesmo um beijo – um beijo! – possui. Pergunte a uma viúva do que ela mais sente falta do falecido, e é bem capaz de ela lembrar só das incomodações que o infeliz causava, mas as mãos agarradas dentro do cinema hão de despertar sua saudade. Pergunte a mesma coisa a alguém que está vivendo uma dor-de-cotovelo daquelas. Mesmo sofrendo, é provável que não se comova com a lembrança das brigas e nem dos “eu te amo”, mas ter que assistir a uma comédia romântica de braços cruzados há de feri-la de morte. E os casados há 20 anos, há 30, há 50 anos? Podem atualmente rugir um para o outro na sala de jantar, mas dentro do cinema ainda tratam-se como se tivessem se conhecido ontem e não perdem o hábito instaurado no primeiro filme de suas vidas. Se não o fazem mais, é porque o casamento acabou e não foram avisados. O último resquício de amor ainda se confirma com as mãos dadas dentro do cinema. Há salvação para os que as mantém unidas ao menos ali."
Martha Medeiros


Então; ontem, depois daquela brincadeirinha com testes na web e consequentemente daquele post, fiquei morrendo de vontade de reler “Doidas e Santas” e corri à livraria mais próxima para comprá-lo. A primeira vez que o li foi em e-book, e nossa, que coisinha mais sem emoção esse tal de e-book... Porque livro, livro de verdade, tem toda aquela coisa de contato físico, visual, sentar em uma poltrona macia com uma xícara de chá e se perder nas páginas, marcar as páginas ou versos mais apreciados, escrever o seu nome e a data da leitura, colocar na estante e ficar admirando, de poder chamar de seu e morrer de ciúmes dele, de matar a saudade de vez em quando..., e não ficar olhando para a tela do computador como se tivesse fazendo a coisa mais banal do mundo... Mas a intenção deste post não é falar do meu amor por livros...

Quando li essa crônica da Martha fiquei refletindo sobre meu relacionamento de quase 3 anos... Chequei a conclusão de que se manter as mãos dadas em momentos singulares – como no cinema – significa que o relacionamento ainda tem salvação, então o meu relacionamento está mais do que salvo (não que ele precisasse de salvação, longe disso), aliás, se for esse o caso, estamos salvos e temos passe livre para o “paraíso” sem precisar passar por julgamento ou purgatório...
Todas as noites, antes de dormir, o Rafa segura minha mão, a aperta e diz: “Bons sonhos minha vida!”. E ali permanecemos, unidos, até que o sono venha e nos separe, ou não, várias vezes acontece de acordarmos ainda de mãos dadas... E eu acho incrível o significado desse momento. Uma coisa íntima, de cama – muito além do sexo –, nossa. Provando que apesar do cansaço do dia-a-dia, ali, no calor da nossa cama, temos o poder de esquecer tudo e todos com apenas um entrelaçar de dedos, com apenas o calor de nossas mãos, fazendo daquele momento a parte mais deliciosa do nosso dia. O nosso momento particular e irresistível de cumplicidade, o momento de dizer –sem palavras – “Eu estou aqui, do seu lado, para você!”

Um comentário:

Millena Blogueira disse...

Nossa, que lindo o amor de vocês!
Também sou fã da Martha Medeiros, os textos dela são ótimos.
Parabéns pelo blog, ta incrível!